terça-feira, 21 de maio de 2013


O capuz
























Marcus Sabry Azar Batista
www.marcussabry.com
Introdução


A vida de dois personagens se encontra em um momento crítico para ambos, o momento da execução, em circunstâncias completamente opostas... um é o condenado a morte, o outro, o carrasco...

Apenas um mínimo de contato entre ambos, através de buracos de traça no capuz do condenado... que vê seu carrasco e um resquício de mundo, em seus últimos momentos...


De repente, tudo ficou escuro...


* * *


Apenas alguns buracos de traças me permitiam ver um resquício de mundo. A cada respiração, o ar aquecido e úmido me sufocava mais um pouco. E eu sabia que cada passo era um passo a menos. Que cada respiração me aproximava do fim.

Eu estava ali para ser morto. Morto por um crime que realmente cometi. Mas eu não entendia porque tantas outras pessoas estavam ali naquele mesmo momento. Teríamos algum encontro marcado? Porque tantas pessoas deixaram de cuidar de suas casas, de suas plantações, de seu mercado, para ver a vida de alguém sendo extinta?

Haveria nisso alguma compaixão? Haveria a sensação de imaginar como seria estar no lugar de um condenado? Haveria apenas uma curiosidade meio doentia?
Ou haveria alguma sensação de superioridade, intensa a ponto de compensar as horas de espera, sob um sol escaldante? Haveria alguma sensação de superioridade que compensasse a volta pra casa refletindo sobre as imagens de alguém tremendo sob o impacto de um projétil, depois caindo, depois ficando imóvel? Haveria alguma sensação de superioridade que compensasse esta demonstração orquestrada de violência, algo que justificasse a farsa de um julgamento, a brutalidade de uma execução?

Alguma sensação de superioridade que justificasse sacrificar a vida de um ser humano diante de outros seres humanos? Porque não fazê-lo em reservado, simplesmente fazê-lo? Porque não fazê-lo do mesmo modo que eu cometi meu crime, sutilmente, dissimuladamente, só interessando o resultado, sem testemunhas, apenas vítima e algoz?


* * *


Preparar...


* * *


Poderia ser o mais comum dos dias; um dia que começou cedo, antes do nascer completo do sol... um dia que começou cedo, antes que as brumas se dissipassem totalmente, a névoa parecia querer cobrir o sol para sempre, como se pudesse impedir o que acontecerá em seguida...

Pudera eu não precisar estar ali, diante de um pobre diabo que mal entende o que está acontecendo. Um pobre imbecil que mal consegue respirar sob um capuz roído por traças. E que logo estará inerte, qual um saco de areia ou de esterco. E que logo desaparecerá, como poeira levantada pelo vento.

Malditas traças, que me permitem ver os seus olhos. Malditas traças que permitem que ele me olhe enquanto respira.

Malditos todos esses idiotas que criaram essa farsa, esse teatro de marionetes sádicas. Malditos vocês, idiotas comuns, que deveriam estar cuidando de suas vidas ao invés de vir assistir ao espetáculo de uma vida sendo extinta. Malditos todos, inclusive a mim, por não ter alternativa a não ser participar dessa possibilidade de medíocres se sentirem superiores, mesmo que apenas por um momento.

Como me tornei soldado? Não sei ao certo. Mas que outras opções eu teria, neste recanto perdido no tempo, dissociado da história?
Como me tornei carrasco? É praticamente o mesmo que perguntar: por quê não desertei; por quê não fui embora deste buraco miserável onde tive o azar de nascer... A resposta é simples: por quê não tenho nenhuma habilidade além da pontaria. Habilidade tão casual quanto o meu local de nascimento. A experiência com armas aproximou o exército de mim; a falta de opções me fez não poder dizer não.

Não conto mais quantos homens executei; não sei se eram inocentes ou culpados. Nem se seu crime e sua culpa justificariam seu extermínio. Nem me interessa saber nem ficar pensando, sem poder chegar a qualquer conclusão. Sei apenas que eu não tinha alternativa. Como suas vítimas talvez não tenham tido alternativa; como não tiveram alternativa melhor para uma manhã de sábado, essas vítimas que vivem nesse lugarejo esquecido e que vieram assistir outra vítima ter um destino mais cruel que os delas – talvez tenham vindo por isso, para que se sintam menos miseráveis, ao menos por uma manhã.

Não muitas pessoas comuns sobrevivem neste mar de poeira, nesse deserto de calor e secura, onde o sol e a sede castigam mais que doenças, onde o trabalho é pesado, o solo de areia é escaldante e as encostas, íngremes. Um lugar onde o vento, de vez em quando, parece desesperadamente tentar levar tudo embora...

Poucas pessoas sobrevivem aqui e se sentem sempre tão miseráveis, que lhes é necessário se sentir menos miserável de vez em quando. E, assim, de vez em quando, é necessário que alguem morra de forma cruel para estes poucos que permanecem se sintam um pouco menos miseráveis.

Poucos homens, poucas mulheres, poucas crianças e quase nenhum idoso. Mas em número suficiente para necessitarem se sentir superiores a alguém. Para necessitarem sacrificar alguém em sua própria homenagem, como se isso tornasse menos insuportável o seu dia a dia.

Como se isso os tornasse menos miseráveis que esse pode diabo que ora consome seus últimos vapores, respirando por meros buracos de traça abertos em um capuz.


* * *


Benditas traças, que roeram alguns milímetros do capuz. Mas, por estar próximo dos meus olhos, os pequenos furos me permitem ver ainda uma parte significativa da paisagem que muitos considerariam lúgubre – mas, que, de tão familiar, me parece simplesmente o meu mundo.

Ou, simplesmente, o mundo, uma vez que não conheço outros – e sei que mal conseguiria imaginá-los, por nunca ter me afastado daqui mais que uns poucos dias de viagem. Tentativas de fuga, viagens sem rumo definido, em que a paisagem sempre se tornava cada vez mais desértica, cada vez mais quente, mais árida, a cada hora, a cada dia que passava, até que eu desistia de me afastar...

Até que eu desistia de tentar mais uma vez me livrar da condenação que o acaso me impôs. Até que eu desistia de fugir da condenação de não ter nascido em algum outro lugar qualquer, desde que menos sufocante do que o único mundo que conheci, o mundo em que passei a existir e de onde não consegui me afastar.

Benditas sejam as traças que me permitiram ainda ver um resquício desse mundo. Benditas as traças que me permitiram respirar um pouco do ar quente que antes me sufocava, um ar que ainda é melhor que o ar tóxico que sai da minha respiração ofegante. Um ar quente que ainda me traz um pouco do cheiro conhecido do meu único mundo.

Um cheiro forte, mistura de poeira, suor de homens e mulheres, urina e fezes de animais, sangue de incontáveis sacrifícios aos deuses eternamente esquecidos, chás de incontáveis ervas sempre fervendo em algum ponto, fumaça de madeira e de esterco queimando em tantos lugares ao mesmo tempo que parece tornar impossível sobreviver no ar puro... os cheiros... os últimos cheiros entram por furos de traças em um capuz...

E os sons, os incontáveis sons sutis de mil pessoas no mercado próximo; os gritos de oferta dos vendedores, a barganha retrucada dos compradores, o andar apressado das mulheres, o andar displicente das crianças, a corrida frenética dos ladrões de comida... os sons... os últimos sons também entram pelos furos que minhas amigas traças trouxeram para o capuz da minha mortalha.

Buracos de traça no capuz, que me permitem ver um resquício de mundo, ainda com seu colorido pálido, mil tons de cinza, algumas cores tímidas, alguns raros pontos brilhantes... que me permitem ver alguns animais esguios pastando displicentemente, meninos correndo atrás uns dos outros, ainda sorrindo simplesmente por estarem vivos, alguns pouco velhos sentados no chão, outros em pé, apoiados em bastões de madeira... alguns fumam, outros conversam, outros apenas olham para o nada...

Vejo uma mulher parada, com a mão sobre a testa para que o sol não a ofusque, enquanto observa os últimos momentos de um encapuzado desconhecido, insignificante, a não ser por representar uma miséria maior do que a da própria mulher parada sob o sol.


* * *


Buracos que me permitem ver os olhos de meus carrascos. Olhos que parecem estar com mais medo que eu. Olhos que se esforçam nas miras dos fuzis... para não se afastarem mais que alguns milímetros do meu peito esquerdo... olhos que se esforçam para fugir dos meus... olhos que parecem olhar para o nada, que parecem tentar não ver o que está diante deles.

Alguns dos carrascos desviam o olhar de mim como quem desejaria qualquer coisa, menos estar ali. Mas, uma vez que estavam e não poderiam fugir dali, só uma coisa poderia ser tão desejada: que seu fuzil estivesse carregado apenas de balas de festim, que não fosse deles a mão que apertaria um gatilho sincero, apenas o gatilho dissimulado, enganador, mentiroso, falso como aqueles que me julgaram, para quem a aparência de um tiro é tão importante quanto o tiro real, que o som, a luz e a fumaça importam tanto para o público quanto a bala que eles não veem nem escutam.

Outros, olham fixamente para mim, através da mira e através dos furos no capuz... olham como se desejassem que seu fuzil estivesse com a bala verdadeira, real, que explodiria verdadeiramente o peito de um encapuzado insignificante, anônimo, um qualquer, mais parecido com um saco de areia ou de estrume. Desejam que sejam eles os que trarão a todos os que assistem, o prazer de se sentirem menos miseráveis, por um dia. Mais que isso, desejam que seja deles a chance de tirar uma vida humana, mesmo que miserável, mesmo que desprezível, mesmo que seja apenas um fiapo mais parecido com uma imitação de vida do que com uma vida realmente humana – mas isso não interessa muito, não mais que a oportunidade de se sentir superior por um dia.

Mesmo que seja a oportunidade se sentir superior a um pobre diabo encapuzado, quase nem mais humano, condenado por um crime menor, uma mera desculpa para um espetáculo mais ridículo que macabro, triplamente trágico: um culpado por um crime menor ser condenado apenas para propiciar um espetáculo; um esfarrapado ser executado enquanto outros miseráveis assistem como se isso os tornasse menos miseráveis; esfarrapados aproveitarem a oportunidade de matar um esfarrapado, por motivos muito mais vis que seu crime...


* * *

Apontar...


* * *


Percebo agora que o capuz não serve a mim. Serve a meus carrascos, que preferem não me olhar nos olhos. Que preferem não ver minha expressão de terror. Que preferem não lembrar de mim mais do que o mínimo necessário, apenas uma farda surrada e um capuz corroído por traças, mais parecido com um saco cheio de areia ou de estrume do que com um homem comum, um homem igual a qualquer um, um ser humano igual aos seus carrascos – igual aos que se esforçam ao máximo para se sentirem diferentes, mesmo que seja de um pobre diabo mais parecido com um saco do que com um homem.

O capuz serve para esconder meu desespero dos meus carrascos; serve para que meu desespero não acentue o desespero deles, não os faça desejar estar em meu lugar, como se morrer fosse uma alternativa razoável para quem apenas sobrevive, como uma semente é ressecada até quase morrer; mas vai resistindo sem perceber e sem mais esperar que um dia a chuva fertilize o solo...


* * *


Fogo!


* * *



Vários fachos de luz explodiram na minha direção. Não terei tempo de escutar o som do tiro que se dirige a mim. Lembro que um único tiro se dirige para mim, apesar de vários fuzis apontados. Todos explodem, apontados para o meu peito. Mas quase todos tem balas de festim.

Apenas um tem balas de verdade. Quase todos são falsos. Apenas um é sincero.

Quase todos enganam a seus atiradores, para que não se sintam culpados pelo meu destino. Para que possam chegar em suas casas, depois de cumprirem seu papel de soldados, e possam almoçar em paz com suas esposas e seus filhos; para que possam fazer afagos em seus cães e deitarem-se nas suas camas, para repousar merecidamente; para que possam tudo isso sem saberem ao certo se hoje mataram ou não alguém. Para que possam esquecer mais rapidamente essa manhã inglória. Para que possam dormir a noite toda sem acordar com o pesadelo de ver uma bala saindo de sua própria boca, sendo soprada a toda força, como quem sopra uma zarabatana, viajando por alguns poucos metros até explodir o peito de um encapuzado.

Não atiram na cabeça, porque é mais difícil acertar. Atiram no peito, por ser maior e por conter melhor a explosão e o sangramento dentro de si mesmo, não espalhando pelo chão pedaços dos condenados – os quais seria trabalhoso recolher; atiram no peito que sangra para dento, sujando menos o chão de areia já escurecida por tantos outros sangramentos de tantos outros encapuzados anônimos.


* * *


Durante uma fração de tempo, tudo desapareceu. Tudo ficou claro, como se o sol se postasse a minha frente, ofuscando um resquício de mundo. Depois, vi um risco de luz, apenas. Um risco de luz vindo na direção do meu peito, como se estivesse me procurando há muito tempo. Como se estivesse ansioso por finalmente me encontrar. Por finalmente me libertar de meu ensaio de vida, de meu fiapo de sobrevivência, de minha quase ausência de desejos além de alguma esperança vaga, que mal conseguira definir, durante os quase vinte anos em que vaguei por esse deserto.

Um risco crescente de luz, que buscava o meu peito, um risco de chumbo incandescente, que girava frenético, causando uma turbulência na nuvem de fumaça atrás dele, uma espiral que se espalha, dissimulando os rostos dos meus carrascos. Imagino que isso lhes traga um certo alívio, por não ver mais parte do meu olho, por um mísero buraco de traças.

No entanto, percebo por um momento ínfimo, que agora se define o que mais lhes angustia. Agora saberão se de seu fuzil partiu a bala ou se dele partiu apenas fumaça e ruído. Se dele partiu a verdade ou apenas encenação; a verdade ou apenas parte de um teatro mesquinho; se poderão ir satisfeitos ou angustiados para casa; insatisfeitos ou angustiados – por saberem que extinguiram uma vida humana, ou quase humana – ou por saberem que não; por terem tido o prazer que desejavam ou por achar que terão de carregar uma sensação de culpa; satisfeitos mesmo sem terem mérito e culpados mesmo sem ter culpa, por um ato que não seria de bravura nem de covardia e sim apenas uma oportunidade que o acaso lhes concedeu.

O acaso de ter nascido naquele mundo perdido; o acaso de não ter conseguido nenhuma ocupação outra, além de soldado em um exército em farrapos, sem inimigos reais para combater; o acaso de ter sido escolhido entre não muitos para estar naquela execução, naquela encenação decidida por alguns poucos, para que não muitos possam se sentir superiores a um miserável qualquer.

O acaso de eu ter cometido um crime menor, um crime qualquer, e estar tão fraco para fugir, ter sido apanhado tão facilmente, em um momento em que as pessoas estavam precisando de alguma diversão e não haveria nenhuma melhor do que assistir um ser quase humano sucumbindo diante de um pelotão de fuzilamento, com suas fardas esfarrapadas – mas ainda assim, impressionantes para os semi-nus que assistem.

O acaso de seres estarem organizados de modo a se admitirem com o direito de decidir a vida e a morte de alguem; de se admirem como deuses locais, que decidem sobre si mesmos, se caracterizando como seres, mas que decidem também sobre outros seres, se caracterizando como deuses.

O acaso de poderem estar ali, exercendo essa função mesmo em uma sociedade tão primitiva e carente... mas que não deixa de ser composta por humanos, que não deixam de precisar sublimarem a frustração de se acharem pequenos, vendo alguem ainda menor sucumbir diante deles.


* * *


O projétil que me procurava finalmente me encontra. E finalmente encontro o que sempre procurei. A verdade, trazida por uma explosão no meu peito. Não sei quem foi o meu carrasco mas tanto faz, pra mim.

Nesse momento, ele sabe – pois tiros de festim não produzem um recuo na arma tão intenso quanto um tiro de verdade...


* * *


A mim, interessa apenas que tudo ficou escuro. E que depois, tudo ficou resumido a um resquício de mundo, visível por buracos de traça em um capuz. E, que depois, tudo ficou claro, ofuscante pela explosão do tiro. E que, depois, tudo ficou leve, apenas percebi a explosão do meu peito mas não senti dor, não senti angústia, não senti culpa, não senti mais nada – além de um alívio, suave como uma brisa, terno como nada que eu tenha experimentado até então, apenas um desfalecimento sutil, um adormecer tranquilo, a sensação de finalmente estar me libertando sem precisar fugir.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Motivações

Chegará um momento em que nós não conseguiremos realizar mais nada, apenas
sobreviver por algum tempo – por minutos, por dias, por anos ou até por décadas. Mas,
durante esse tempo, poderemos apenas sobreviver, apenas respirar e manter nosso
corpo funcionando; com alguma sorte, poderemos lembrar do que construímos e do que
destruímos. Mas, além de meramente sobreviver por um intervalo incerto de tempo, não
realizaremos mais nada: não alcançaremos mais nenhum objetivo conceitual.
Após esse tempo, em algum momento displicente, geralmente imprevisível, nossa
sobrevivência se extinguirá e nos tornaremos apenas um corpo, um agregado organizado
de moléculas, que se dispersarão pelo ambiente como poeira lançada ao vento. Nos
tornaremos então uma lembrança; é o que restará de nossa existência: informações
guardadas na memória de alguém, uma fotografia, um vídeo ou, quem sabe, uma estátua,
um arquivo, um holograma, até. Após mais algum tempo, mesmo essa lembrança
certamente desaparecerá: como um castelo de cartas, como um castelo de areia ou como
um de castelo de pedra; mas, certamente, após um tempo menor ou maior, finalmente
desaparecemos: quando as pessoas que lembravam de nós não lembrarem mais,
deixaremos de ser uma lembrança e desapareceremos para sempre deste mundo. Desse
momento em diante, tudo ocorrerá como se não tivéssemos existido.
Desapareceremos, é certo. Porém, a partir do nosso objetivo de “mais que sobreviver”, se
realizarmos algo que permaneça além da nossa sobrevivência, uma realização física ou
conceitual, nossa existência continuará se manifestando; continuaremos sendo lembrados
e assim, de alguma forma, continuaremos existindo. Transformamos, assim, o desejo de
“mais que sobreviver” no desejo e na possibilidade de “continuar existindo” através da
realização de algo duradouro.
Um filho lembrará dos pais, enquanto ele viver; um neto se lembrará mais um pouco dos
avós; embora para os bisnetos e tataranetos, os bisavôs e tataravôs geralmente sejam
apenas parte de alguma história contada raramente. Assim, se uma das realizações é
fazer existirem filhos e, quem sabe, netos, nós não desaparecemos como um castelo de
cartas. Nos tornaremos uma lembrança nas suas cabeças, eles podem olhar nossas
fotografias e contar estórias sobre nós. Mas, além disto, a própria existência de filhos e
netos significa a continuidade da nossa. E assim existiremos, de alguma forma, por mais
algum tempo, até desaparecermos como algum tipo de castelo, talvez de areia.
O desejo de não desaparecer (ou de prolongar ao máximo os efeitos de sua existência)
poderia explicar porquê é tão comum o desejo de fazer existir um filho? Ainda, poderia
explicar que este desejo seja bem mais intenso que o desejo de adotar uma criança como
filho? E poderia explicar ainda que o desejo de clonar a si próprio possa ser ainda mais
intenso (não mais freqüente e sim, quando presente, mais intenso)?
E se realizarmos algo físico mais duradouro, como criar uma empresa de bases muito
sólidas, ou conhecimento que possibilite efeitos físicos, podemos existir de alguma forma,
por muito mais tempo, até desaparecermos como algum tipo de castelo, talvez de pedra.
Enfim, o desejo de “continuar existindo de alguma forma” corresponderia a uma
acentuação do desejo de “mais que sobreviver”? E poderia motivar seres humanos a
terem filhos ou a realizarem algo com efeitos físicos duradouros, como uma empresa, ou
como o conhecimento?
Cada pirâmide do Egito foi construída para servir a faraós e outros nobres não durante e
sim após sua sobrevivência. Para tal realização, é necessário um grau acentuado de
consciência quanto ao fato de que a sobrevivência terá um fim; no entanto, esse era um
fato óbvio para todos os outros habitantes do Egito, não apenas para os faraós e outros
nobres. Imaginemos, então, a intensidade da motivação necessária para decidir mobilizar
até dezenas de milhares de seres humanos (com a consciência de que centenas ou
milhares deles morreriam durante a construção) e concentrar recursos materiais e
riquezas significativos mesmo para um império. Este seria apenas um dos exemplos mais
evidentes do desejo de continuar existindo, de alguma forma, após encerrar-se a
sobrevivência, transformando-se em motivação e resultando na realização de algo
duradouro.
Já ouvimos ou lemos na biografia de algum cientista relevante uma frase semelhante a
algo assim: “as pessoas passam mas o conhecimento gerado por elas permanece”? Seria
uma maneira refinada de expressar o desejo de continuar existindo, de alguma forma,
através de uma realização, o conhecimento?
Sabemos de alguém que se dedica a construir uma empresa sólida e que se preocupa
particularmente com que ela não desapareça junto como o seu próprio desaparecimento?
Decorreria tal preocupação apenas do desejo de que seus funcionários não percam o
emprego, de que seus clientes continuem sendo atendidos, de que seus fornecedores
continuem tendo para quem vender, de que seus filhos tenham de onde obter sustento?
Ou poderia tal preocupação também decorrer do desejo de continuar existindo, de alguma
forma, por mais algum tempo, de não desaparecer como um castelo de cartas?
Corresponderia a empresa à pirâmide do empresário e o conhecimento, à pirâmide do
cientista?
Podemos fazer essas mesmas perguntas de outra maneira: aceitaríamos de bom grado
que, chegando ao fim da nossa sobrevivência, também chegue ao fim nossa existência?
Aceitaríamos tranqüilamente nos tornar apenas uma lembrança a ser, mais cedo ou mais
tarde, inevitavelmente apagada? Ou preferiríamos admitir a possibilidade de que, mesmo
após encerrada nossa sobrevivência, continue, de alguma forma, nossa existência?
O homem de neandertal, há aproximadamente 200.000 anos, enterrava seus mortos.
Alguns foram achados em posições específicas e com pertences pessoais. Certamente,
imaginava que, de alguma forma a existência poderia continuar, mesmo encerrando-se a
sobrevivência. Observada em praticamente todas as culturas, a memória de
antepassados mortos seria uma maneira de mantê-los existindo, de alguma forma; bem
como significa a esperança de ser mantido existindo pelos descendentes.
Esse mesmo desejo, tão antigo quanto homem de neandertal, tão intenso quanto o dos
faraós, poderia motivar atos do nosso dia-a-dia, como decidir ter filhos, fundar uma
empresa ou participar de organizações beneficentes? Poderia nos servir como motivação,
influenciar nosso comportamento e interferir nos nossos relacionamentos? Seria uma
fonte de motivação freqüente? Se o for, seria intensa? Se o for, porquê o seria? Enfim,
porquê os desejos de “mais que sobreviver” e de “continuar existindo, de alguma forma”
através da realização de algo duradouro, seriam tão presentes e tão intensos? Afinal, o
que motiva o ser humano a se comportar como se comporta? Haveria outras motivações
relevantes do comportamento do ser humano?

sexta-feira, 29 de junho de 2012


Perdoar-se



Carta a um amigo desconhecido, que fugiu da sobrevivência, como um peixe que foge de um aquário para o mar – como se este não fosse também limitado...


Caro amigo,

O meu mais sincero desejo neste momento é que esta carta pudesse te encontrar. Mas sei que te escrevo tarde demais. Como se poderia voltar o tempo, ou anular seus efeitos ou, simplesmente, ignorá-lo?
Como se não sobrevivêssemos e existíssemos contidos no tempo, simultaneamente no intervalo entre dois momentos? Como se não sobrevivêssemos e existíssemos separados pelo espaço, entre dois pontos de uma linha?
O tempo nos unira e o espaço nos separara... Para ti não há mais espaço nem tempo nem outros conceitos. Quanto a mim, ainda não enxergo nem escuto nem raciocino sem eles... Ainda construo castelos de areia. Ainda viajo em busca do sempre mais... Então, que significariam meus atos? Não sei.
Mas sei o que eles podem significar: o mesmo que os teus. Os mesmos que o de qualquer ser que é humanamente. O mesmo e único significado genérico dos atos: aceitar ou não nossa essência, nossas liberdades e restrições comuns. Por isso te escrevo. Para te contar que pensei algo que talvez também te faça pensar...
Ainda ouço os ecos do 'sereis como deuses'... e sei que 'indubitavelmente morri' mas ainda não entendi como... Sei que, perdido, caminhei sobre as marcas de teus pés descalços na areia... Sei que outros caminharam sobre as marcas que eu, perdido, imprimi... Mas ainda não estou sereno quanto ao que preciso e quanto ao que não-preciso entender...
Ainda ouço o eco do “sereis como deuses”... E me perturba lembrar que “Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal”... “Agora, pois, cuidemos para que ele não estenda sua mão e tome também o fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente”. Esta característica é nosso maior desejo: poder viver eternamente, poder existir de modo absoluto, poder gerar a si próprio. Mas nenhuma de nossas viagens em veleiros sem leme, nenhuma das conchas que coletamos na areia, nenhum de nossos castelos de cartas, de areia ou de pedra, nenhuma de nossas realizações restritas nos trará a única árvore que nos falta: poder gerar a si próprio, “viver eternamente”... com características decididas por nós mesmos, com liberdades não-restritas... Poder viver eternamente não significa viver pra sempre e sim poder viver enquanto nós decidirmos viver. Significa não apenas poder deixar de viver mas também poder deixar de existir, se quisermos. Significa, meu amigo desconhecido, realmente poder a mera ilusão que alguém espera da morte – e, não raramente, alguém abrevia a sua chegada tamanho é o poder dessa ilusão.

 Após reconhecer nossas limitações e nossos mecanismos de sublimação, nos resta algo ainda mas difícil: perdoar-nos.

Nos resta reconhecer que “não-perdoar-nos” significa arrogância, de forma explícita ou pseudo-humilde; e que, perdoar-nos significa aceitar nossas imperfeições existenciais e pessoais. Perdoando-nos, perdoamos aos semelhantes, aceitamos também suas imperfeições, o que significa aceitar a igualdade, significa desistir da diferenciação, desistir dos personagens, desistir dos jogos e da guerra.

Mas, como “perdoar-nos”, sem saber se “erramos” ou “acertamos”? Quando se faz parte de um pelotão de fuzilamento em que apenas uma arma está carregada – e não sabemos qual é – como “perdoar-se”...? Sequer sabemos se matamos ou não...

Mas é exatamente assim que funciona o perdão: não é necessário detalhar as culpas, pois as conhecemos apenas conceitualmente. Ou seja, apenas parcial, relativa e subjetivamente. Se perdoarmos o que reconhecemos como “errado” perdoaremos apenas dentro dos limites dos nossos conceitos de “errado”: ou seja, perdoaremos os “erros” dentro dos mesmos limites em que os cometemos.

Apenas perdoando a si próprio e, consequentemente, aos outros, de forma geral, sem qualquer conceito restritivo, apenas perdoando, a qualquer  pessoa, o que quer que haja para ser perdoado, alivia-se a angústia das culpas. Perdoando-se dessa forma, os “erros” ou “acertos” não importam em si: o perdão os torna (erro e acerto) equivalentes, restando apenas o próprio perdão.

Podemos nos perguntar se o perdão não seria injusto para aquele que “acerta”, ao igualá-lo ao que “erra”. Mas ambos já são existencialmente iguais. O “erro” e o “acerto” os diferencia apenas conceitualmente, porquê “erro” e “acerto” são não mais que conceitos gerados por nós. O perdão apenas reconhece isto, a-conceitualmente: não importando o conceito de “certo” e “errado”.
Não perdoar a si próprio é uma atitude arrogante. Não perdoar-se é não se aceitar como capaz de “errar”: uma atitude explicitamente arrogante. Assim como não admirar os “acertos” próprios é uma atitude pseudo-humilde: porquê os considera ainda pouco, diante de si mesmo, que é capaz de muito mais.
É preciso reconhecer isto antes que nosso tempo finito se encerre. É o que precisamos alcançar antes que a morte nos alcance: reconhecer nossas limitações existenciais e pessoais, supor nossos mecanismos de sublimação e perdoar-nos mesmo sem conhecer a intencionalidade com que agimos – independentemente de quaisquer conceitos sobre ela, admitir como naturais as nossas imperfeições, os nossos limites.
Caso contrário, a trajetória de nosso veleiro sem leme apontará para o sempre mais. Apontará para a busca incessante de se tornar “melhor a cada dia” – a ilusão de que podemos nos tornar diferentes do que somos. Embora possamos pensar de forma diferente e, consequentemente, agir de forma diferente, isso não nos torna diferentes do que somos. Portanto, não torna um ser humano que já “se tornou muito melhor” diferente de um ser humano que ainda apenas pasma-se diante da própria existência.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A menina com o corpo na mão.

A menina esguia e pálida
vaga com um corpo nos braços
por uma rua escura e fria
cheia de porcos assanhados
a menina esguia e pálida
carrega nos braços o próprio corpo
e a menina oferece o próprio corpo
a qualquer porco
que queira se deitar
na solitária esquina deserta
ela faz e aceita qualquer oferta
quando não há mais o que fazer
pra dar de comer
à sua velha mãe e a seu novo filho
noite após noite
a menina pálida
vaga na mesma rua e na mesma esquina
carrega nos braços o mesmo corpo esguio
se deita com os mesmos porcos
seu futuro segue um mesmo trilho
a menina esguia e sem esperança
deus chama de criança
deus chama de filho

sábado, 29 de maio de 2010

Viagem a Floriano

Na viagem a Floriano, dias 28 e 29 de maio, ficamos surpresos com a dimensão da Feira Agropecuária. 
Ainda, ao visitar o Hospital Regional Tibério Nunes, fiquei feliz ao ver a estrutura da UTI local; no entanto, apesar de ter sido inaugurada a sua parte física, ainda não está em atividade, aguardando a disponibilidade de materiais. 
Visitamos também um hospital privado, o Hospital João Paulo II. Com 12 leitos, unidade de pronto-atendimento, consultórios, salas de exame e de cirurgia, está estruturado de forma impressionante, mostrando o quanto empreendedores locais estão confiantes no crescimento do setor saúde. O BNB, financiou parte da obra.
Visitamos o aeroporto local, atualmente em obras. A pista está aguardando pavimentação e balizamento noturno; assim que estiver operando, contribuirá muito para o desenvolvimento local.
Seguimos acompanhando iniciativas rumo ao desenvolvimento.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Transplantes no Piauí

Nesta terça li uma matéria no Jornal Diário do Nordeste falando sobre o grande crescimento do número de transplantes no estado do Ceará. A reportagem “Ceará bate mais um recorde de transplantes” mostra o crescente número de cirurgias e as efetivas campanhas de doação.

Somente nos três primeiros meses de 2010 o Ceará realizou 315 transplantes, sendo 160 foram de córnea, 84 de rim, 45 de fígado, nove de coração, cinco de medula óssea e três de pâncreas. Isso é mais que todos os transplantes feitos no Piauí no ano de 2009.

Em nossa terra, ano passado, foram feitos apenas 157 transplantes, sendo 31 de rim e 126 de córnea. A quantidade de cirurgias reduzidas não está ligada ao tamanho da população e sim à estrutura e organização que se oferece para viabilizar o transplante de um órgão.

No Piauí, eu e mais alguns médicos ligados ao setor de transplantes estamos desenvolvendo uma estrutura para viabilizar o melhor aproveitamento de órgãos para transplantes. Um dos principais problemas no transplante está na conscientização da população sobre a doação de órgão, pois o que se nota é que ainda há muitos mitos em torno deste tema.

Outro ponto importante, e que já estamos trabalhando em cima, diz respeito ao transporte dos órgãos. Por necessitar de cuidados delicados, estamos colocando em funcionamento uma UTI Aérea, que irá agilizar o transporte de órgãos e pessoas para serem transplantadas. Com uma locomoção mais rápida e um trabalho especializado, os número de transplantes no Piauí podem crescer substancialmente.

Marcus Sabry

domingo, 4 de abril de 2010

Poder e corrupção

Recebi um e-mail de um colega jornalista (Alisson Bacelar), comentando uma entrevista publicada na revista Época
(acesse o link: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI125571-15223,00-O+PODER+REVELA+QUEM+SOMOS.html).
A idéia geral é que se pode demonstrar experimentalmente que "o poder corrompe". Vide nossa resposta, abaixo (e veja a entrevista na edição online da revista Época, através do link acima).

Marcus Sabry


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Grande Allison,




Obrigado pelo envio do artigo sobre poder e corrupção.



Teria sido interessante ter descrito melhor o experimento, seus métodos e resultados. Por exemplo, não é citado como foram compostos os grupos - como foram escolhidas as pessoas que fariam parte do "pouco" e do "muito" poderosos; essa informação é fundamental, uma vez que a diferença encontrada pode decorrer de diferenças já existentes entre os grupos, ao invés de decorrer da situação estudada. Assim, embora não dê para concluir (pelo que foi descrito) o que o autor concluiu, tendemos a acreditar no resultado porque ele reafirma o nosso senso comum.



Os resultados apresentados são uma média do grupo: dentro dele, há resultados individuais que foram maiores que a média e outros, menores que a média. Ou seja, como o comportamento humano é extremamente complexo e variável, podemos supor que algumas pessoas se comportariam da forma prevista para os "corruptos" (trapaceando para mais), outros trapaceariam para menos e outros, não trapaceariam.



Mesmo considerando que "a maioria" das pessoas se comportaria de forma corrupta, esta é uma informação importante mas muito pouco útil. Seriam úteis informações que possibilitassem prever se o comportamento individual seria mais provavelmente corrupto o não. Na prática, algo que é praticamente impossível de saber - a não ser em casos de reincidência.



Interessante é que o autor considera (pelo pouco que pode ser expresso na entrevista) que o problema seria uma característica intrínseca ao ser humano - algo que vem sendo discutido há séculos; vide Jean Jacques Rousseau, Thomas Hobbes e outros). E, paradoxalmente, a solução sugerida é extrínseca: mais vigilância. A prestação de contas e a transparência na administração pública e privada é essencial, obviamente. Mas, muito mais eficaz é uma fórmula mais simples, embora mais difícil de ser realizada: selecionar a pessoa indicada para a função, seja um executivo, um funcionário ou um político; ou seja, de todas as fases da política de RH (recrutamento, seleção, treinamento, supervisão, avaliação, etc.) a mais importante, sem dúvida, é a seleção. Se voce selecionou um colaborador adequado, as outras etapas (treinamento, etc.) fluirão melhor, de forma mais produtiva; se, ao contrário, nem todos os esforços de treinamento, supervisão, etc. serão suficientes para compensar o equívoco na seleção.



Em uma empresa, a seleção dos executivos é um processo que está muito mais sob o controle dos proprietários ou acionistas, os candidatos tem uma história e realizações bem conhecidas, características pré-definidas (não são eles que se candidatam e sim são pré-selecionados) e o resultado nem sempre é satisfatório; em uma entrevista para selecionar um colaborador, a avaliação é altamente subjetiva e em 5 minutos é preciso decidir se um ilustre desconhecido tem as características necessárias; em uma eleição, o candidato é um ilustre desconhecido (a não ser o nome e a aparência), com recursos para se apresentar bem diferente do que é na realidade e a supervisão será feita (se for) de forma muito indireta: ou seja, nada mais difícil do selecionar um político.



É por isso que uma eleição não ocorre em 5 minutos nem pode ser decidida por um grupo seleto de pessoas. A população escolhe por vários critérios, simultaneamente. Uns escolhem pela aparência física, simplesmente; outros, pela forma como o candidato fala e olha, se transmite “algo bom”; outros, pelas propostas concretas; outros, pelo que conhecem do seu passado e realizações; outros, pelo que conhecem dos seus relacionamentos pessoais e comerciais (os grupos a que estão ligados). Por menos rígidos que sejam os critérios, dificilmente se escolheria “qualquer um” - o que corresponderia ao mero efeito do acaso – porque, mesmo sem nenhum critério, a escolha ocorreria apenas entre os que se tornaram conhecidos do eleitor (o que já é uma forma de seleção, que já manifesta fatores ambientais, econômicos e políticos).



Resumidamente, Allison, os que se propõem a participar ativamente desses processos (empresarial e político) precisam se aprofundar ao máximo na questão da seleção - o que é só o início da história. Após a seleção é que as características serão confrontadas com a realidade; assim, aquele candidato que se anunciava como competente e experiente, poderia não estar mentindo e, apesar disso, não ser competente e experiente o bastante para resolver as situações que vai ter pela frente, seja como colaborador, seja como executivo, seja como político.



Voltando ao tema que motivou nosso debate, o estudo sobre se “o poder corrompe”, considero que as oportunidades que o poder traz apenas evidencia características prévias, as potencializa. Assim como quaisquer situações extremas (como naufrágios - onde “os ratos saem primeiro” -, situações de privação – como ilustrado no livro e filme “Ensaio sobre a cegueira”), o poder apenas retira as máscaras. E o segredo das seleções – entre elas as eleições – é conseguir ver sob as máscaras: se for muito diferente da aparência, procure outro candidato. Nesse processo, as pessoas utilizam estratégias muito particulares para tentar “ver”, assim como utilizam conceitos muito diferentes sobre o que é “máscara”. Bom, esse é nosso mar, é nele que navegamos.
 
 
 
Atenciosamente,
 
Marcus Sabry